Cargueiros nucleares como solução para descarbonização do transporte marítimo e redução de custos operacionais a longo prazo Deixe um comentário / Economias e Negócios / Por mateusrib2003@gmail.com Navios militares vêm utilizando energia nuclear há várias décadas, e agora estaleiros comerciais começam a explorar essa tecnologia como uma solução para um dos principais desafios do setor: a descarbonização do transporte marítimo global. A indústria naval é responsável por aproximadamente 3% das emissões mundiais de gases de efeito estufa, superando a poluição de países como Japão. A Organização Marítima Internacional estabeleceu a meta de reduzir essas emissões em até 30% até 2030 e eliminá-las completamente até 2050, o que implica a necessidade de abandonar o óleo bunker, o combustível fóssil mais poluente do setor. Embora combustíveis alternativos, como amônia e metanol, estejam sendo desenvolvidos, eles ainda são caros e de difícil acesso, levando Mikal Boe, CEO da Core Power, a considerar essa situação como um “problema quase intransponível”. Sua empresa está liderando uma iniciativa em colaboração com a sul-coreana HD Korea Shipbuilding & Offshore Engineering e a americana Southern Co. para criar cargueiros com pequenos reatores nucleares. A proposta, embora audaciosa e com custos iniciais elevados, visa oferecer navios mais rápidos, eficientes e com maior capacidade de carga, além de atender uma demanda reprimida explícita. O objetivo é lançar o primeiro cargueiro nuclear até 2035, utilizando um reator da TerraPower, cuja fase de testes está prevista para 2029. A Southern Co. traz a experiência da recente construção da primeira usina nuclear nos EUA em décadas. Essa busca por soluções nucleares ocorre em um cenário de ressurgimento da energia nuclear, impulsionado pela crescente demanda energética gerada pela inteligência artificial, que tem atraído investimentos tanto em energia nuclear convencional quanto em novas abordagens, como fusão e pequenos reatores modulares, os últimos dos quais serão empregados nos navios. Desde a instalação do primeiro reator naval em um submarino americano em 1955, as embarcações civis com propulsão nuclear foram testadas a partir de 1959, mas a maioria não teve continuidade devido a dificuldades técnicas e financeiras. Atualmente, cerca de 160 embarcações, em sua maioria militares e quebra-gelos russos no Ártico, fazem uso de fissão nuclear. No entanto, a pressão por padrões ambientais está levando o setor comercial a reconsiderar essa opção. Algumas empresas estão experimentando combustíveis como amônia e hidrogênio, além de velas, enquanto a dinamarquesa Maersk já opera navios movidos a metanol de baixa emissão. Contudo, as dificuldades de disponibilidade e custo desses combustíveis alternativos são evidentes. A energia nuclear, segundo especialistas, possui mais potencial para escalabilidade, com testes de cargueiros nucleares previstos para a metade da década de 2030. Entretanto, desafios significativos permanecem. Companhias de seguro geralmente não cobrem embarcações nucleares devido ao alto risco de acidentes, o que impede que portos civis aceitem esses navios. Além das questões de seguro, preocupações com a segurança também são relevantes, já que o combustível nuclear é radioativo e navios comerciais são mais vulneráveis a incidentes. O debate está em curso na Organização Marítima Internacional, que discute atualizações no código de segurança para navios comerciais que utilizam reatores nucleares, além de considerar penalidades financeiras para embarcações que poluam. As tecnologias nucleares emergentes podem ajudar a reduzir riscos, já que reatores mais recentes são projetados para operar sob pressão normal, limitando a área de risco em caso de acidentes. Se os obstáculos forem superados, os benefícios podem ser significativos, pois atualmente os navios navegam a uma velocidade reduzida para minimizar emissões e custos de combustível, enquanto um navio nuclear poderia operar em sua velocidade máxima sem essas preocupações. Além disso, a eliminação de tanques de combustível poderia aumentar a capacidade de carga em até 10%, e reatores nucleares podem operar por décadas sem reabastecimento, um processo que atualmente consome aproximadamente um mês por ano. Embora o investimento inicial em um navio nuclear seja três vezes superior ao de um convencional, estima-se que, em 25 anos, o custo total de operação de um cargueiro nuclear possa ser menos da metade do de um navio tradicional, representando uma opção benéfica para o meio ambiente e economia a longo prazo.